Amadeo de Souza Cardoso no Porto

Atrações turísticas

Outubro 27, 2016

Portoalities

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Na viagem à descoberta da rota dos vinhos verdes, da qual vos falarei em breve, passei por Amarante. Cidade bela na sua pequena majestade, bem próxima do berço de um dos talentos portugueses mais esquecidos da história: Amadeo de Souza Cardoso. Amadeo, génio absoluto celebrado (e rapidamente esquecido) por toda a parte, será homenageado numa exposição que decorrerá no Museu Nacional Soares dos Reis de 1 de Novembro a 31 de Dezembro.

Mas para compreender o contexto desta exposição importa recuar no tempo e recordar a vida de Amadeo de Souza Cardoso…

 

“Meus destinos só estão bem comigo”

Amadeo de Souza Cardoso nasceu em Manhufe em 1887 no seio de uma família rural abastada e conservadora, quinto de nove irmãos. Quando passei por Amarante fiz questão de descobrir onde nasceu Amadeo, uma vez que a casa, pelo menos do lado exterior, se encontra tal e qual como nas fotografias antigas:manhufeO pai de Amadeo acalentava a esperança de que o filho se dedicasse aos negócios da família, mas Amadeo desde cedo mostrou um sentido de vocação e uma lucidez invulgar, como podemos comprovar na carta que escreve aos pais, quando tinha apenas 19 anos:

“(…) sou um espirito dramático, e a minha alma representa sempre uma tragédia em que sou o único espectador. Meus destinos só estão bem comigo; ou por eles triunfo, ou por eles sou esmagado.”

Amadeo de Souza Cardoso partia, então, para Paris, maior centro cultural e artístico da Europa, oposto solar da sua pequena terra natal.

Amadeo, suportado pela disponibilidade financeira da sua família e pela sua natural ambição, cedo se introduz nos círculos culturais de Paris, convivendo com artistas como Brancusi, Picasso, Gris, Modigliani… personalidades apaixonantes e apaixonadas entre si, que interferem e influenciam a arte umas da outras. Seria um erro, contudo, enquadrar Amadeo de Souza Cardoso como um mero discípulo destes artistas mundialmente reconhecidos, pelo contrário; são vários os historiadores de arte (tais como Laurent Salomé, director artístico do Grand Palais) que defendem que o artista português estaria no epicentro criativo de Paris, influenciando outros artistas tanto quanto estes o influenciavam a si.

EspÛlio Amadeo de Souza Cardoso

Estúdio de Amadeo de Souza Cardoso em Paris.

Em 1911, Amadeo de Souza Cardoso concorre aos dois grandes certames da época, o XXVIII Salon des Indépendants e o X Salon d’Automne, ambos em Paris, tendo sido selecionado e participado com um total de 12 telas, a maior parte das quais se encontra desaparecida, e que a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, tenta recuperar há anos.

Mais tarde, e com o seu absoluto sentido de carreira, Amadeo de Souza Cardoso cria um portfólio de 20 desenhos que envia para os Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. Desenhos exóticos (tal como o que apresento de seguida, de 1913, entitulado “The Hawks”), de uma mestria irrepreensível que atravessa vários estilos, que despertam um enorme interesse.amadeo_de_souza-cardoso_the_hawks_1912_indian_ink_on_paper_27_x_243_cm

Na sequência disso, e pela mão amiga de Walter Pach, Amadeo participa, em 1913, no Armory Show, tendo representado a 3ª melhor venda da exposição, que abarcava obras de mais de 300 artistas norte americanos e europeus. armoryshow

Ainda é possível, aliás, ver um quadro de Amadeo de Souza Cardoso na exposição permanente do The Art Institute of Chicago, intitulado “Saut du Lapin”.sautAos 26 anos, Amadeo de Souza Cardoso é um artista seguro de si, que já expôs em França, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos. Amadeo descreve-se de forma segura e individualizada:

“Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Sou cubista, modernista, abstraccionista? De tudo um pouco.”

 

“Trabalho, trabalho como um animal”

São grandes as expectativas construídas à volta da sua carreira; interrompidas, no entanto, pela 1ª Guerra Mundial. Amadeo de Souza Cardoso retira-se para a residência familiar, em Manhufe. Esperava-se um guerra curta, mas os dias estendem-se em anos e despontam em Amadeo uma criatividade furiosa, incentivada pelas missivas do amigo Walter Pach, que lhe relata as expectativas dos Estados Unidos em relação aos novos trabalhos do jovem pintor português.

Infelizmente, sonhos e ambições são ceifados pela gripe espanhola. Amadeo de Souza Cardoso morre em 1918, com 30 anos de idade e muito projectos por cumprir. As suas obras últimas mostram, contudo, um estilo totalmente novo que se avizinha dentro de si, como podemos ver nestes quadros, (o da esquerda é mesmo um dos meus preferidos – que fúria, que sensualidade!):1917O artista é rapidamente esquecido, tendo para isso contribuído a natural resistência da sua viúva, Lucie, em partilhar as obras de Amadeo de Souza Cardoso até aos anos 80, época em que as doou à Fundação Calouste Gulbenkian. E, atrevo-me a dizer que contribuiu igualmente para esse esquecimento a decisão da família de Amadeo em doar parte das suas obras, que estavam na casa de Manhufe, ao Museu de Amarante, cidade secundaríssima num Portugal que asfixiava sob um regime ditatorial opressivo.

Helena de Freitas, historiadora de arte, disse, no belíssimo documentário “Amadeo, o último segredo da Arte Moderna”, que a pergunta “mas afinal, quem era Amadeo de Souza Cardoso?” tem de deixar de existir. Em conversa com um amigo, ele disse-me: “não é a pergunta que tem de deixar de existir, é a resposta que tem de aparecer”. Espero, de alguma forma, ter contribuído para essa resposta com este artigo.

 

Exposição de Amadeo de Souza Cardoso no Porto: 1916 e 2016

A exposição patente no Porto irá recriar recriar a única exposição de Amadeo de Souza Cardoso na cidade, que decorreu em 1916.

“As obras que Amadeo decidiu expor estão hoje dispersas por diversas coleções públicas e privadas. Reuni-las, procurando refazer os gestos e as opções do malogrado pintor é, em primeiro lugar, uma homenagem”, indica a descrição da exposição, que seguirá depois para o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, em Lisboa.

A exposição contará com 90 das 114 obras que foram originalmente expostas no Porto há 100 anos e que, segundo o próprio Amadeo, “atingiu, em 12 dias, um número impressionante de (30.000) visitantes e agitou a cidade”, desencadeando, por vezes, reacções agressivas e despertando a atenção da imprensa.

Mais palavras para quê? Espero ver-vos lá, a meu lado, admirando o trabalho deste imenso português 🙂 E, se aceitam uma sugestão, depois de visitarem a exposição dêem um passeio nos Jardins do Palácio de Cristal, a meros 10 minutos a pé, um dos corações verdes mais amados pelo Porto 🙂

Exposição de Amadeo de Souza Cardoso
Museu Nacional Soares dos Reis
R. de Dom Manuel II, 44
Patente de 1 de Novembro a 31 de Dezembro.
Ter – Dom 10h – 18h. Encerra às segundas.

 

2017-08-31T09:25:46+00:00Outubro 27th, 2016|Atrações turísticas|0 Comments
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