Quando o Dimitri, da Holanda, me lançou o desafio de escrever sobre os jardins românticos do Porto e a sua história, eu soube imediatamente por onde começar. Embora o momento seja de comemoração dos belíssimos jardins do Palácio de Cristal e haja uma longa lista de jardins interessantes, há um em particular prende a minha atenção. Afinal, uma escrita apaixonada carece de um objecto carregado de simbolismo; e que melhor foco de atenção que um jardim dedicado às mulheres do Porto?

É do jardim de S. Lázaro que vos falo, o qual, no vídeo sobre as camélias do Porto, vos disse tratar-se do primeiro jardim público do Porto. Um jardim que, no século XVII, era apenas um campo nos arrabaldes da cidade, onde existia um hospital de lázaros (leprosos) cujo santo padroeiro, S. Lázaro, deu o nome a esta zona da cidade.

Jardim de S. Lázaro no início do século XX.

Jardim de S. Lázaro, no início do século XX (1905), num postal da época.

Foto da autoria de Alberto Ferreira.

Jardim de São Lázaro. Foto tirada por volta de 1905, da autoria de Alberto Ferreira.

Em 1722 é fundado o Recolhimento das Órfãs, actual Colégio de Nossa Srª da Esperança, na fachada do qual está, já agora, uma das misteriosas caixas de ferro do Porto; e,  em 1783 instala-se o convento dos Capuchos de Santo António da Cidade, onde é hoje a Biblioteca Pública Municipal do Porto.

Espartilhado entre estes edifícios ficara um espaço onde todas as semanas se realizava um mercado de porcos e, anualmente, uma feira no dia de S. Lázaro, em que era habitual doar um anel de prata ou de estanho, consoante as posses de cada um, no altar do referido santo.

Colégio de Nossa Srª da Esperança.

Colégio de Nossa Srª da Esperança, e a sua caixa de incêndio.

Mas voltemos ao tema principal, e às mulheres do Porto. Como sabem, durante a Guerra Civil portuguesa, o Porto esteve rodeado por um cerco entre Julho de 1842 e Agosto de 1833. Foi um cerco pesadíssimo para os portuenses: às investidas das tropas miguelistas, somavam-se inimigos silenciosos como a cólera, o tifo, a fome; o frio, também, que transformou as belas árvores do Porto em lenha para a população.

Assim, a 27 de Janeiro de 1833, D. Pedro IV ordena a construção do Jardim de S. Lázaro, dedicado às mulheres do Porto para de alguma forma as compensar pelas duras provações enfrentadas durante o Cerco do Porto.

Uma das entradas do Jardim de São Lázaro. Foto da autoria de Miguel Nogueira.

Uma das entradas do Jardim de São Lázaro. Foto da autoria de Miguel Nogueira.

O coreto do Jardim de São Lázaro. Foto da autoria de Miguel Nogueira.

O coreto do Jardim de São Lázaro. Foto da autoria de Miguel Nogueira.

miguel nogueira

O jardim de São Lázaro durante o festival gastronómico A’gosto no Porto. Foto da autoria de Miguel Nogueira.

E, de tal forma foi esse compromisso levado a sério, que em 1838, por decreto da Câmara Municipal do Porto, foi deliberado um regulamento que estipulava “não somente a conservação do jardim, mas também a manutenção, dentro do espaço, de uma patrulha, para garantir o escrupuloso cumprimento das instruções mencionadas“, nomeadamente, a interdição a entrada de “mendigos de ambos os sexos, homens com carretos às costas, crianças não acompanhadas e a toda a pessoa que, por seu trajo menos decente, possa pertencer às classes indicadas”. Pretendia-se, assim, satisfazer os objectivos da criação deste jardim; que fosse um recanto das  senhoras portuenses!

Foto da autoria da Porto Lazer.

Foto da autoria da Porto Lazer.

O Jardim de S. Lázaro, embora modesto em tamanho e parco de vistas, rapidamente se tornou popular entre a fina sociedade. Segundo Carlos de Passos, tornou-se “o lugar obrigatório de reunião das famílias do Porto e largamente se notabilizou na crónica elegante desses tempos. Durante 30 anos aura intensa fruiu. Era o centro do janotismo e da moda”. Magalhães Basto refere igualmente “que animação, que luxo, que vida havia então nessa miniatura de Passeio Publico! Tinham passado de moda o Passeio do Carmo e das Fontainhas, e ainda não chegara o tempo da Cordoaria e do Palácio de Crystal.”

Estas duas citações dão-nos conta do quão pequena foi a época dourada do Jardim de S. Lazaro. Com a abertura dos Jardins do Palácio de Cristal (1860) e do Jardim da Cordoaria (1865), ficou o Jardim de S. Lázaro, e contrariando os valores liberais sob os quais foi estruturado, entregue, segundo os ilustres da época, “à populaça e a criadagem“.

António Cruz (1907-1983), Coreto. Jardim de S. Lázaro, 1941. Aguarela In Catálogo da Exposição António Cruz 1907-2007 no Museu Nacional Soares dos Reis de 14 de Dezenbro de 2007 a 31 de Janeiro de 2008.

António Cruz (1907-1983), Coreto. Jardim de S. Lázaro, 1941. Aguarela In Catálogo da Exposição António Cruz 1907-2007 no Museu Nacional Soares dos Reis de 14 /Dez / ’07 a 31 / Jan / ’08.

Chegara o Outono do Jardim de S. Lázaro. Sem vista para a barra do Douro, sem passeios largos e arejados, encerra contudo um suave perfume que contraste com o ambiente urbano em que se insere. Se, por um lado, é inolvidável a presença dos carros a toda à volta, não menos se faz sentir o som do repuxo do laguinho, as sombras das frondosas árvores, o colorido das camélias no Inverno. É o ponto de encontro dos reformados que jogam cartas, ponto de passagem de muitos locais, um lugar de repouso para os turistas. E, para mim, um dos mais bonitos jardins românticos do Porto.