Para que servem as misteriosas caixas de ferro?

Cultura Local

Janeiro 25, 2016

Perguntado por Anna, Alemanha

Perguntado por Anna, Alemanha

Imaginem que a vossa casa está a arder. Não existem redes sociais, internet, ou sequer telemóveis para que possam dar o alerta. Não existe água canalizada na vossa casa, para irem apaziguando o fogo, nem carros para fugirem dali. Como é que pedem ajuda? Como é que os bombeiros vão sequer saber que existe um incêndio?

Este era o desafio dos habitantes do Porto no século XIX, e foi criada uma solução deveras engenhosa para o resolver. Foram espalhadas 21 caixas de ferro fundido pelas diversas freguesias da cidade, sempre nas paredes da sua igreja principal. Na tampa, estava uma lista esculpida de “Toques de Incêndio”, como por exemplo: Sé – 4; Paranhos – 11. Dentro das caixas estava um manípulo que, através de uma corda encoberta por um cano de ferro, fazia ligação ao sino da igreja em questão.
P1090416Quando deflagrava um incêndio – o monstro que quanto mais come e se consome, menos se farta, como diria o Padre António Vieira -, as pessoas iam à caixa mais próxima, e puxavam o manípulo no número de vezes referentes à sua freguesia. Por exemplo, se o incêndio fosse na Sé, então o manípulo era puxado quatro vezes, dando origem a quatro badaladas. Assim, o resto da cidade já sabia onde era o incêndio, porque ouviam o número de badaladas e só tinham de conferir na lista a que freguesia dizia respeito.

P1090417

Bombeiros numa carroça de tracção animal, carregando uma bomba de picotas.

P1090418

Bombeiros a puxar uma carroça com uma bomba de picotas. Era assim no Porto antigo!

Nessa altura, os varredores municipais, os aguadeiros (homens que carregavam barris de água às costas, para abastecer as casas do Porto), e todas as pessoas que estivessem nas imediações, iam buscar água às fontes mais próximas. Assim, quando os Bombeiros chegassem com as bombas de picotas (que eram levadas por força de tracção animal ou mesmo humana), só tinham de bombear a água, fazendo-a chegar até ao foco do incêndio. Quando o fogo estivesse quase extinto, eram soadas três badaladas, para que a cidade fosse avisada que o perigo estava afastado.

As caixas eram 21, hoje são 6; lindíssimas, todas elas, discretos pontos de memória da cidade do Porto.

Correcção: Os meus queridos leitores Urgel Couto e Claramag2014 fizeram-me chegar fotos de mais duas caixas de incêndio, uma em Valadares e outra nos Bombeiros Sapadores, na Rua da Constituição no Porto. Obrigada a ambos pela contribuição – vocês são Portoalities! 🙂
P1090932          urgel
Vale a pena fazer um belo passeio para descobrir cada uma delas; eu fiz, e deixo-vos aqui o mapa. Espero que gostem!

2017-08-31T09:27:39+00:00 Janeiro 25th, 2016|Cultura Local|6 Comments
Vê os meus tours privados