Quando visitarem o Porto é obrigatório passarem pela Ribeira, uma zona protegida pela Unesco. Podem até aproveitar para apanhar o Cruzeiro das 6 Pontes, cujos preços e condições já vos expliquei aqui.

Se lá forem num dia de sol, o vosso olhar recairá naturalmente sobre os miúdos que saltam da ponte D. Luís I. Estes saltos de 20m são tão inacreditáveis que inspiraram uma curta metragem chamada Meninos do Rio, do realizador espanhol Javier Macipe, filmado em 2014. Mas podem admirar estes saltos em filmes ainda mais antigos como o famoso Aniki Bóbó (1942), um dos primeiros filmes do galardoado realizador português Manoel de Oliveira.

aniki bobo bom     os meninos do rioQuando os miúdos estão em calções, numa fila de espera periclitante, esperando pela sua vez de saltar, só consigo pensar: porque saltam? É uma tradição, um rito de iniciação, é pelo divertimento em si? Foi sempre assim? Podem saltar homens e mulheres, velhos e novos?

Tantas perguntas sem resposta! Se queria desvendar esta tradição tinha de ir à Ribeira, ao encontro da geração mais antiga, que guarda os segredos do rio. Infelizmente, já não podia entrevistar o Duque da Ribeira, personagem famosíssima no Porto, mas fui à procura de outras.

Olinda “Rabelo”

A primeira pessoa que conheci foi a Olinda “Rabelo”, que deve o cognome à sua avó, que teve um romance com um marinheiro de um barco rabelo (eu já expliquei aqui o que torna esse barco tão especial). “Claro que eu saltava da ponte! Eu, o meu pai, os meus amigos, toda a gente”, responde sem hesitar. “Eu costumava nadar do Porto até Gaia. Ainda hoje, quando os miúdos me desafiam, mergulho com eles!” Então as mulheres também saltavam antigamente? “Pois claro! A Bela Palavrinhas até saltou quando estava grávida. Toda a gente salta. Até tu podes ir saltar agora!” Olho hesitante para as águas escuras do rio Douro que me desmotivam da façanha, apesar de os olhos da Olinda me incentivarem. Ela diz-me onde mora, onde dança kizomba, conta-me histórias sobre as cheias do rio. Sinto o seu orgulho alegre de pertencer à Ribeira, a sua juventude imbatível apesar dos 80 anos. Uma verdadeira tripeira, meus amigos!olinda (1)

Sr. Capélio Azevedo

Depois, conheci o Sr. Capélio Azevedo. Este cavalheiro de 84 anos, sentado discretamente no seu café na Ribeira, tem também bastantes histórias para contar. É famoso por ser um nadador exímio, um talentoso cantor de fado e,… por ter perdido a oportunidade de ser famoso! De facto, quando Manoel de Oliveira começou à procura de candidatos a actor principal do Aniki Bóbó, toda a gente lhe recomendou o Capélio, nessa altura com 11 anos, que nadava tão bem que era conhecido por bacalhau demolhado. Então, o realizador foi procurá-lo a casa para descobrir que ele ainda estava na escola. Quando o Capélio chegou, a avó disse-lhe o que se tinha passado, e ele foi à rua e viu o Manoel de Oliveira rodeado de miúdos. Sentindo-se intimidado e com trabalhos de casa por fazer, o Capélio nunca fez audições para o filme. Outro menino foi escolhido. “É um dos maiores arrependimentos da minha vida. Hoje podia ter um filme para mostrar aos meus netos. Podiam ver como o avô nadava há 70 anos!”capelio (1)Mas o que vejo é orgulho, não arrependimentos. “Eu nadava tão bem que as pessoas atiravam moedas ao rio só para me verem mergulhar. Depois usava as moedas para comprar uma laranja, um pão… foi durante a guerra, havia muita fome no Porto.” Então saltava por divertimento? “Por divertimento, porque estava calor, toda a gente da Ribeira saltava. Hoje em dia é diferente, vêm pessoas de outros bairros, até de outras cidades, saltar. Mas isto é algo que fazemos desde que me recordo.”
Capélio levanta-se e põe a tocar um dos seus CDs de Fado. A música começa, e ele lentamente junta-se à sua própria voz gravada, hesitante a princípio, mas com redobrada confiança à medida que a música avança. Enquanto canta, eu escuto a letra das músicas, todas elas sobre esta gema ribeirinha.

“Tenho duas paixões na vida, o Fado e a natação. É aqui que eu pertenço”. Ele proferiu as palavras, mas eu não precisava que o fizesse; as suas memórias, resgatas do tempo por uma conversa com uma estranha, lançam uma nova luz sobre a Ribeira.

Continua a ser um pequeno bairro cinzelado pelos caprichos do rio. Mas, por debaixo desse olhar superficial, existe um microcosmos Portuense, com um forte sentido de comunidade, em que o rio une as gerações mais novas às antigas, através de memórias e sonhos e saltos para o rio.

 

Foto de capa de Carlos Romão