Quando escrevo uma história penso nas pessoas por detrás dela: deixo o discurso encarnar a vida de uma personagem histórica, pergunto aos locais o que sentem relativamente a algum acontecimento, imagino como é que “os de antigamente” usavam um determinado edifício. Apresentar apenas factos é-me manifestamente insuficiente; as pessoas devem existir também, a colorir as minhas histórias com os seus sonhos, esperanças e opiniões. São a alma viva de uma cidade e quero que isso se reflicta no Portoalities.P1080444P1080429 18.34.28     P1080451 18.34.28

P1080443Por isso, quando comecei a escrever sobre o Mercado do Bolhão não sabia ao certo que história queria contar, mas sabia em quem me inspirar: nos vendedores que todos os dias trabalham neste mercado centenário, aberto em 1914. Foi nesta altura que me cruzei com o Hugo e a Patrícia, um casal adorável que tem uma pequena loja dedicada exclusivamente a produtos do Douro Vinhateiro (a região vinícola mais bonita do mundo, da qual já vos falei).
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P1080551     P1080479A história deles começou nos anos 30: nessa altura a avó do Hugo, Maria Guilhermina, vendia flores no mercado. Não existiam transportes públicos e, por isso, ela e a mãe carregavam os cestos de flores às costas desde Vila Nova de Gaia. Era um trabalho penoso para uma menina de 7 anos, mas que compensava no final do dia de trabalho. Afinal, o Bolhão era o mercado principal do Porto, abastecendo também outras grandes cidades do Norte como Braga, Guimarães e Santo Tirso.

O mercado abria às 7 da manhã mas, a essa hora, já metade dos negócios do dia tinham sido selados pelos vendedores, que esperavam pela abertura dos portões nas ruas adjacentes ao mercado. As pessoas viriam de longe, com os seus cestos de ovos e as suas garrafas de vidro vazias. Comprariam frutas e legumes para a semana seguinte. E esperariam pacientemente pelas aves que seriam abatidas a horas certas, no matadouro do mercado.

Era a época dourada do mercado do Bolhão e, ao longo dos anos, Guilhermina adquiriu duas bancas de flores. Sendo um pequeno negócio familiar, Guilhermina trouxe consigo uma das filhas, Maria Albertina, para a ajudar. “Eu era preguiçosa nos estudos e a minha mãe começou a trazer-me com ela teria eu uns 9 anos. Quando fiz 18 anos comecei a trabalhar no mercado de forma permanente”, diz-me Maria Albertina, com um sorriso tímido e as mãos sempre ocupadas em arranjos de flores.

“Só deixei o Bolhão em 2006. As bancas já não vendiam como antes, com a vinda dos centros comerciais e dos supermercados. Ainda por cima, foi proibido estacionar à porta do mercado, o que tornou a vinda dos clientes bastante inconveniente. E, por volta dessa altura, a Câmara Municipal do Porto aconselhou-nos a deixar o mercado, porque estaria em risco de colapsar”. Maria Albertina decidiu abandonar o mercado do Bolhão e abrir uma florista mesmo em frente, onde trabalha hoje em dia.

As bancas que Maria Guilhermina e a filha detinham foram encerradas. O Hugo, filho da Maria Albertina, juntamente com a sua esposa Patrícia, tinham o desejo antigo de trazer uma nova vida a uma das lojas da família e, durante anos, tentaram mudar a loja do nome da avó para o nome do Hugo, mas sem sucesso. Após 6 anos, a Câmara Municipal permitiu-lhes mudar não o nome, mas a actividade comercial do espaço, e puderam finalmente dar forma ao seu sonho. Assim, abriram a Bolhão’s wine house, que combina o charme de uma florista antiga com a decoração moderna de uma loja de vinhos.

Sempre que possível, compram os produtos que servem na loja a outros vendedores do mercado, porque querem que todos beneficiem da sua operação. E, se alguém adquirir um produto consumível dentro do mercado que eles não tenham na sua carta- digamos, um queijo específico -, permitem que o cliente o consuma lá. Quão excepcional é esta verdadeira visão de comunidade?!

O Bolhão é um sitio completamente diferente do que era nos tempos da Guilhermina, da Maria Albertina e, até, da infância do Hugo – é um edifício carente de renovação, quer em termos de estrutura física quer em termos de funcionalidade. Já não serve as necessidades de uma população sujeita a horários de trabalho alargados, que prefere fazer as suas compras semanais em supermercados.

O mercado esteve a ponto de ser convertido num hotel de luxo / escritórios, mas felizmente a população do Porto uniu-se para evitar que isso acontecesse, pois o Bolhão é um elemento fundamental na nossa cultura local. Não existe outro lugar que mantenha o espírito da Invicta como o Mercado do Bolhão; nem qualquer outro onde possam encontrar tripeiros no seu estado mais puro, intocado até.

O actual presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, eleito de forma independente dos partidos políticos, apresentou recentemente uma nova solução. O mercado do Bolhão terá um piso térreo coberto, onde estarão instaladas todas as bancas de frescos. As cortinas que existem no primeiro piso, para proteger a fruta do sol, serão mantidas mas mudarão de funcionalidade, uma vez que protegerão as pessoas que estiverem nas esplanadas dos bares e restaurantes que abrirão no piso superior, na ala Sul. Na ala Norte, existirão estruturas multifacetadas que receberão diversos eventos.

Nuno Valentim, o arquitecto responsável, disse: “Seremos absolutamente cuidados com um edifício que é singular”, realçando que o projecto assentará em três vertentes: “edifício, mercado e pessoas”.
P1080459Pessoalmente, acredito neste modelo híbrido. A ser concretizado, reunirá o melhor de dois mundos: por um lado, manterá o espirito do mercado vivo (através dos vendedores e das bancas do piso térreo) e, por outro, trará novas funcionalidades e um novo público, com maior poder de compra (através dos restaurantes no primeiro piso). E isso é absolutamente crucial: os edifícios têm de se adaptar para que consigam sobreviver, de forma a reconquistarem o seu lugar – ou um novo lugar – na vida quotidiana das pessoas.

E, enquanto tomo um copo de Moscatel do Douro na Bolhão’s wine house na companhia do Hugo e da Patrícia e sempre de olho na foto da Guilhermina, pendurada na parede, só posso sorrir e ter esperança que o mercado seja resgatado aos seus dias de glória.

 

Foto de capa de Nuno Cruz