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São João não é o santo padroeiro do Porto. Então quem é?!

O São João no Porto é a noite mais importante do ano. No entanto, ele não é o santo padroeiro do Porto - descubra quem é neste artigo!

Sara Riobom

Junho 1, 2016

Tour privado no Porto (meio dia)

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Antes de ler este artigo: já tem onde ficar no Porto? Se não tiver, leia o meu artigo sobre Onde Ficar no Porto: as Melhores Zonas da Cidade.

A noite mais importante do ano, no Porto, é consagrada a São João. Noite de folias, excessos na justa medida do são convívio entre sardinhadas e bailaricos à beira rio, entre outras tradições engraçadas.

Dada a dimensão da festa, de clara origem pagã, dir-se-ia que o santo padroeiro do Porto é São João. E, no entanto, não é. Então, quem é o santo padroeiro do Porto?

O santo padroeiro do Porto

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Na verdade, é uma santa – Nossa Sr.ª da Vandoma, também conhecida por Nossa Sr.ª do Porto 🙂 A devoção da cidade a esta santa prende-se a um episódio no longínquo século X, quando uma armada proveniente de Gasconha (França), comandada por um nobre português, expulsou os mouros que ocupavam o Porto.

Na armada viajava o bispo de Vêndome, que mais tarde se tornaria bispo do Porto, e que trazia consigo uma réplica da imagem da Nossa Sr.ª da Catedral da sua cidade. Expulsos os mouros,  a imagem de Nossa Sr.ª de Vêndome (entretanto atripeirada para “Vandoma”) foi colocada numa das portas da muralha do Porto, tendo a mesma passado a chamar-se, a partir de então, porta de Vandoma.

E, se olharem com atenção, repararão que é esta Santa que está no brasão do Porto! 🙂

brasao cidade porto portugal

Séc. XVI ao Séc. XX: S. Pantaleão

Muito embora a ligação de Nossa Sr.ª de Vandoma à cidade do Porto seja bastante antiga, esta só foi considerada santa padroeira da cidade a partir de 1984. Antes dela, qual seria o nosso santo protector?

Embora hoje não ouçamos falar dele, S. Pantaleão foi durante séculos o santo protector do Porto. As suas relíquias terão chegado ao Porto em 1453, trazidas por barcos arménios fugidos à ocupação turca de Constantinopla. As relíquias terão sido então deixadas em S. Pedro de Miragaia e transladadas para a Sé do Porto em 1499 pelo bispo D. Diogo de Sousa.

S. Pantaleão havia sido médico e em boa hora “apadrinhou o Porto”, onde, durante os séculos XV e XVI, surgiu mais de uma vintena de surtos de epidemias várias. E, talvez mais relevante até do que a devoção dos aflitos, S. Pantaleão concedeu ao Porto o estatuto de “cidade santuário” (segundo Joel Cleto), atraindo milhares de romeiros à cidade.

sao pantaleao final
À esquerda: busto – relicário de S. Pantaleão (fonte: Porto24). À direita: imagem do mesmo santo, do Arquivo Municipal do Porto.

Existe até um busto – relicário de S. Pantaleão, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto. Foi aberto em 1999 para revelar um fragmento de tecido oriental, um osso (supostamente do crânio do dito santo), dentes e alguns papéis. Mais importante do que contém, é o olhar do busto, que se prende ao nosso, numa inquisição serena que atravessa os séculos e as histórias recontadas…

Séc. XII ao Séc. XVI: S. Vicente

A prosa já vai extensa, mas o Porto, cidade caprichosa de múltiplos santos, tem ainda um outro que me pede que vos revele. É S. Vicente, santo padroeiro do Porto desde o século XII, até ter sido destronado por S. Pantaleão.

Quando D. Afonso Henriques descobriu que S. Vicente, um importante santo católico da Peninsula Ibérica, estava enterrado no Promontório dos Corvos, ordenou que o seu corpo fosse transladado para Lisboa, por volta de 1176.

Mas D. Afonso Henriques quis, primeiro, que as relíquias passassem por Braga, a grande cidade católica do reino. Agora é que a história fica engraçada: reza a lenda que a mula que transportava as relíquias de S. Vicente, “fincou” pé no Porto, tendo mesmo invadido a Sé, onde morreu subitamente.

Na altura, isto foi lido como um sinal divino de que as relíquias de S. Vicente deveriam passar algum tempo no Porto, e assim foi. Quando chegou o momento de as relíquias irem de forma definitiva para Lisboa, ficou no Porto apenas um osso de S. Vicente, que ainda está na nossa catedral 🙂

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A vós, que bravamente me acompanharam ao longo de todo o artigo, lanço o repto de irem conhecer os nossos três santos padroeiros, em amena cavaqueira na Sé do Porto 🙂

Guarde este artigo para mais tarde:

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Tem algo a dizer? Força, não se acanhe!

8 comentários a “São João não é o santo padroeiro do Porto. Então quem é?!”

  1. Nuno Resende diz:

    Por acaso fui quem primeiro apresentou a ideia de cidade-santuário para o Porto no seguimento da apropriação das relíquias de São Pantaleão. Mas como dá trabalho confirmar as fontes dos tele-historiadores como o Joel Cleto, a mentira passa a ser verdade. Enfim, estamos mesmo na era da desinformação.

  2. manuela Branca diz:

    Para mim que sou tripeira, o São João é o padroeiro da cidade

  3. MGoliveira Oliveira diz:

    EXISTE A NOSSA SENHORA DO PORTO, NA ZONA ENTRE A PRELADA E O AMIAL (JUNTO circunvalação)…nA SÉ NÃO SEI SE EXISTE FESTA…

    • Laura Fidalgo diz:

      há uma igreja em REQUEZENDE chamada igreja de nossa SENHORA do PORTO foi na capela anterior á igreja que eu casei vão fazer 50 anos Dantes havia a procissão mas deixaram de fazer há muitos anos

      • MGoliveira Oliveira diz:

        O padroeiro do Porto, em princípio era, São Pantaleão, mas há vários Séculos É: NOSSA SENHORA DA VANDOMA.
        Também lhe chamam, em algumas zonas, Nossa Senhora do Porto…
        M Graça
        Maria Graça Bastos
        No dia 21 de janeiro de 2018 às 14:15, Disqus escreveu:

  4. Pedro JP Sarda diz:

    Mais um excelente artigo. Por acaso, suponho que ao contrário da esmagadora maioria das pessoas, tinha conhecimento da questão … mas é sempre muito útil. Apenas uma espécie de rectificação: ” século X, quando uma armada proveniente de Gasconha (França), comandada
    por um nobre português, expulsou os mouros que ocupavam o Porto.” … A verdade é que no século X o nobre não podia ser português porque Portugal ainda estava longe de ser fundado … o que só sucedeu 2 séculos mais tarde. Por isso seriam territórios do Reino de Leão. Seria um nobre leonês. De salientar ainda que a “conquista” não foi propriamente definitiva considerando as conquistas e reconquistas que o Porto verificou ainda nos 2 séculos seguintes. Abraços.

    • Portoalities diz:

      Olá Pedro! Obrigada pelo feedback positivo e pelo reparo, bastante construtivo, vou fazer a correcção no texto.
      Aproveito também para lhe colocar uma questão que me colocaram na página de facebook do blog… quais as origens das festas de São João no Porto? É certo que a origem é pagã, mas qual o motivo para que o Porto tenha adoptado esta celebração e este santo em particular? Obrigada!